Uma campanha pelo desperdício zero na iluminação noturna!
 
Danos Causados
“Gerações futuras têm o direito a uma Terra sem poluição e destruição inclusive o direito a um céu limpo.” Carta da UNESCO de 1994.

A luz mal dirigida se converte em algo realmente nocivo, causando danos econômicos, sociais e ambientais. Conforme itens subseqüentes:

Econômico: Abuso dos recursos naturais, consumo excessivo de combustíveis fósseis, energia e recursos naturais, além do que realmente é necessário.

Social: A luz intrusa entra de maneira indesejada pelas janelas das casas. É causadora de fadiga, insônia e estresse, colocando em risco as condições de sossego público, além de condutores de veículos, pois a luz potente pode causar cegueira temporária e inutiliza a paisagem noturna, resguardada pela Constituição Federal que abraçou a defesa da paisagem como parte do meio ambiente humano sadio.

Há de se considerar que os efeitos sobre a fauna e flora noturna, o ecossistema em geral, são visíveis, causando ainda resultados que se refletem na sociedade como a possível maior proliferação de cupins, moscas e pombos nas áreas urbanas.

E ainda existe o trabalho na área da Astronomia, o qual depende da observação do céu noturno, que é a razão da existência dos astrônomos, que deslumbra os apaixonados e inspira os poetas, mas que está sob a ameaça de desaparecer, porque o crescimento dos centros urbanos vem ofuscando sua beleza a tal ponto que há lugares onde poucas estrelas se mostram. Isto é difusão inútil de luz na atmosfera.

Não existe beleza comparável a uma noite estrelada. Anos, séculos, milênios, gerações de homens olhando as estrelas, investigando seus segredos. A contemplação do céu foi um dos motores da história da humanidade tal como o conhecemos. Fica uma pergunta que não quer calar: será que nossos filhos, netos e as gerações que estão por vir terão o mesmo direito de contemplar o céu noturno com sua infinita beleza? Infelizmente não! Com a modernidade essa beleza tem desaparecido. Hoje, a maioria das crianças cresce sem o prazer de parar e ver as estrelas. O desfrute dessa beleza está sendo alterado nas últimas décadas pela poluição luminosa. A luz que em aparência é algo limpo e bom, se mal dirigida se converte em algo realmente nocivo ao meio ambiente, alterando de forma significativa o equilíbrio natural dos animais de vida noturna, poluindo a atmosfera, e ainda, prejudicando a paisagem noturna, tornando os objetos celestes mais belos invisíveis, privando não só o estudo de astrônomos, bem como todos aqueles que querem usufruir a visão das estrelas.

Ambiental: A iluminação noturna também afeta os animais noturnos e diurnos. A flora também tem um ciclo natural que pode ser drasticamente afetado pela invasão luminosa. Uma rápida investigação acerca do assunto revela que alguns animais diurnos podem ser beneficiados pela extensão de horário, outros têm o seu sono prejudicado e sua sobrevivência afetada. Alguns animais de hábito noturno são afetados por precisarem da escuridão para a sua estratégia de vida, outros tiram partido da luz artificial para estender sua reprodução.

É inegável o efeito da poluição noturna sobre a biodiversidade. Porém, por se tratar de uma fonte de poluição pouco debatida, infelizmente ainda não é considerada em toda sua dimensão e portanto é pouco valorada. As aves experimentam uma série de alterações, algumas delas morrem por conseqüência da desorientação que sofrem por se sentirem atraídas por um excesso de luz artificial.

A iluminação inadequada usada de forma intensa está se refletindo de forma nociva ao ecossistema: alterando o fotoperíodo de plantas, prolongando a fotossíntese induzida pela luz artificial; atraindo espécies, levando à diminuição do número de indivíduos; desequilibrando as espécies, já que algumas são cegas a certa longitude de onda de luz e outras não, assim as predadoras podem prosperar enquanto se extinguem as depredadas; diminuição de insetos, alterando a polinização das plantas; alterando os ciclos do plâncton marinho, afetando a alimentação das outras espécies marinhas que habitam ao redor da orla marinha; criando barreiras visuais que restringirão a possibilidade de circulação de pequenos mamíferos; desnorteando espécies de aves migratórias, alterando os percursos tradicionais, ainda colaborando para que os pássaros fujam das cidades assustados com os focos luminosos; causando mortalidade de aves que perdem a orientação ou chocam-se com obstáculos devido ao excesso de luz, ou, atraídas, pode ocorrer que sobrevoem sem parar em torno da luz até caírem pelo cansaço. Enviar sinais falsos para algumas espécies, como as tartarugas marinhas que, quando da eclosão dos ovos podem ser atraídas em direção da orla iluminada e não pelo espelho de água; alterar os ciclos biológicos, levando a distúrbios comportamentais de algumas espécies. Outra espécie afetada pela luz artificial são os insetos, cuja importância é mister, dado o papel que ocupam dentro da cadeia alimentar. Muitos animais e insetos usam a luz como um meio de orientação, uma bússola interna. Valeram-se desse meio durante milhões de anos, enquanto a luz elétrica é usada há pouco mais de cem anos. Ainda não tiveram tempo de se adaptar a esse novo fenômeno humano.
Além dos danos causados à biodiversidade, a poluição luminosa provoca também danos na atmosfera, entre outros. O uso de luminárias mal projetadas provoca emissão de substâncias contaminantes na atmosfera. Ainda, ao se produzir eletricidade, está se gerando contaminação, já que a produção de energia elétrica gera CO2, que em excesso favorece o cambio climático. Portanto o que se pretende é que se diminua o uso inadequado, excessivo e inútil.

A lâmpada fluorescente de mercúrio, tão utilizada, é extremamente nociva. Segundo Carolina Valadares, da Radiobrás, “O principal motivo que exige a descontaminação de lâmpadas fluorescentes é a possibilidade do mercúrio do interior da lâmpada ser inalado pelo ser humano e causar efeitos desastrosos ao sistema nervoso. O metal pode ainda chegar ao homem por outras vias. Se as lâmpadas forem descartadas impropriamente na natureza, primeiramente o metal contaminará o solo, chegará aos cursos de água e alcançará a cadeia alimentar”.

Herbert França, da mesma Radiobrás, destaca que “Quando quebradas, elas liberam vapor de mercúrio que, inalado, pode se depositar no organismo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a legislação nacional estimam em 33 microgramas de mercúrio por grama de creatinina urinária o limite de tolerância biológica para o ser humano.

Todavia, a inalação não é a única forma de contaminação pelo vapor de mercúrio. Uma vez liberado, este elemento vai se depositando no solo, rios, lençóis freáticos, terminando por alcançar a cadeia alimentar, tendo como depósito final os seres humanos. O descarte sistemático dessas lâmpadas em aterros, sem a descontaminação e sem cuidados de armazenamento, eleva para níveis preocupantes a quantidade desse elemento químico no meio ambiente.

Nos EUA, estima-se que aproximadamente um milhão de aves atraídas pela luz morrem pelo impacto contra vidros ou por exaustão após voarem incessantemente em volta da luz pela qual foram atraídas. O fenômeno se dá em decorrência do excesso de luz artificial desnecessária provocado pelos edifícios fortemente iluminados.

Amantes das aves lançaram uma campanha para salvar a vida de milhares de aves que atravessam as cidades norte-americanas na sua migração anual para suas zonas de procriação. Voluntários pediram aos donos, gerentes e inquilinos de edifícios localizados na linha de vôo norte-sul para manterem as luzes apagadas à noite. Os resultados dessa campanha foram extremamente satisfatórios. Chicago já conta com 30 arranha-céus de grande dimensão que abraçaram a campanha e mantêm as luzes desnecessárias apagadas à noite.

Segundo Ken Wysocki, antigo presidente da Chicago Ornithological Society, em apenas 2 anos de programa, a mortalidade de aves foi reduzida em aproximadamente 80%. A solução desse problema ambiental foi simples, bastou apagar a luz desnecessária e o problema se reduziu significativamente.

Na ilhas canárias, podemos citar outro caso que obteve êxito: as pardelas cenicientas, conhecidas no Brasil como pardelas-cinzas. Trata-se de ave marinha que vive durante todo o ano no oceano Atlântico e no mar Mediterrâneo. Essas aves migradoras vão desde as Canárias até Argentina, Cabo de Boa Esperança, Namíbia, e Brasil. A contaminação luminosa nas edificações da costa do mar se tornou um obstáculo para elas, já que as crias dessas aves oceânicas são atraídas pela luz artificial. Os filhotes de pardelas que nunca viram o mar, quando saem confundem a luz com a linha branca das ondas do mar. Aproximadamente 2.000 pardelas cenicientas tiveram que ser tratadas por conseqüência do excesso de luz artificial em Gran Canária e Tenerife, onde 5% morreram. Por isso, biólogos, estudantes e amigos da natureza fundaram uma associação “Amigos de la Pardela Cenicienta” para conscientização social.

Atualmente nas ilhas La Palma e Tenerife é obrigatório apagar a luz ornamental a partir da meia noite. A redução é paulatina. Apesar de não existir nenhum regime sancionador a respeito, os critérios se cumprem em torno de 80% dos casos. Com isso a ilha de La Palma ficou afastada do problema da contaminação luminosa e Tenerife reduziu amplamente seus índices. Tal êxito se refletiu não só na vida das pardelas-cinzas, como também, na qualidade de vida de todos cidadãos, no estudo dos astrônomos, já que lá existe um grande observatório, e ainda ocasionou economia energética.